Victor Prado: março 2016

29.3.16

Cataclismos Cristalinos, Crisálidas e Crisântemos

Hoje sonhei com ostras
e mexilhões e tudo
que um dia foi mar

Teu beijo, teu beijo
molhado e fresco

Hoje sonhei que era
nuvem e despencava durante uma borrasca,
só, num oceano distante e frouxo
manchas cinzas no dorso branco
eu tinha a forma de um coelho

faz um tempo, mas eu me lembro
os cachorros latindo e os rinocerontes a espreita
tão cinzas e de chifres graves

era natal e o fideicomissário me repetia:
cada dia possui sua própria destreza
e as manchas das marcas d'água já não
estão mais em meus olhos.
tudo agora é eco.

Uma Epopeia

Uma epopeia: o desejo

(Logo os dias cessam
e de nada adianta teus olhos transbordarem
Logo os dias cessam
e de nada adianta ser um ser evoluído

A realidade sempre engole a ficção)

Narrar o rito de passagem,
narrar a passagem pela presença

Pesar e nunca
afundar

2.
São os frutos, as frutas, os cheiros
pesados do que é

São os insetos
o verão
a enchente

As notícias nos jornais
é Abril de 2015;

É ser turista na sala de casa
e debandar
não só da sala
não só da casa,

É desistir do solo
é desistir de saber do solo

É desistir de saber
e de todas as consequências

É desistir de ser o vento
e de germinar tempestades;

Não é mais Abril,
é Agosto de 2015,
é Setembro

(é meu aniversário
é o esquecimento e a lembrança

é minha mãe chorando no sofá de casa
há quase 500 quilômetros de casa
é o choro dela dentro do ônibus
e o meu fora dele

São essas oito horas que precedem
duas linhas temporais)

É o Brasil em crise
é a estupidez nas ruas

Por que ninguém pede o impeachment da Solidão?

Por que a Solidão é a seca?
Um poço d'água cheio cheio de álcool?

Por que ela é um mercado
um nicho
uma commodity?

Por que a solidão é uma empresa?
Não tenho nada pra te enviar.

Já é tarde e ainda não preparei
nem a roupa nem o sapato.
Já perdi o prazo de inscrição.
Estava no modo silencioso.
Deixei a planta morrer e fui à praia
pegar areia. Não aguei os pés.
Estava de luto e queria
ir à missa, ouvir a homilia dominical.
Rezar na romaria, sentir o cheiro
das velhas e misturá-los aos das velas.

Agora não dá mais. Sou protestante.
Da vertente neopentecostal brasileira.
Ou quase isso.
Agora não dá mais. Já é tarde e escuto Nina Simone.
Irei a Nairóbi, não serei turista. Serei algo de útil.
Irei até a esquina e direi bom dia ao seu Geraldo.
Darei a ele uma marmita com duas carnes,
arroz, feijão e duas guarnições.
O sorriso do seu Geraldo é mais forte que Xanax.

Não tenho como te responder agora. Desculpa. Não tenho
o dinheiro do estorno. Confesso: gastei comprando quibes
e pretzeis. Mas se quiser te faço um bolo de cenoura.
Enfim.

2.
Nesse momento, uso a aliança
na mão esquerda. No dedo anelar.
Gosto da imagem.

Agorinha mesmo, precisei respirar
e às vezes não sei como isso é feito.
A mão esquerda me ajuda nessas horas.
Ela é mais lírica por observação.
Meu tato, decerto, é uma lixa,
e com o uso se desgasta.

O ar não tem tanto peso,
mas o espaço que ele ocupa
é dolorido de se atravessar.

3.
De qualquer forma,
o meu sartório tem apresentado falhas.
Mas a garantia não cobre mal uso.
           - me enfiei numa esfera helicoidal.
             Era de noite e não percebi. O vinho
             tem parte nisso, mas são detalhes. –

Certos aspectos do amor são mais cândidos
quando não são alardeados. Outros são fome.



Poema publicado na Enfermaria 6