Victor Prado: janeiro 2016

18.1.16

Tempus Fugit

Sobe na cadeira e faz um escândalo

Hoje é 16
do primeiro mês
do ano do ceifeiro

Sobe na cadeira
Senta com as pernas abertas
E os braços cruzados e pergunte a sua tia sobre o galinheiro

Tua prima não é uma galinha
Teu tio não é um pastor alemão, mas tem o bafo
E as facas e os porretes e os tranquilizantes e as tesouras
E todo o carinho do mundo para tosquiar as árvores que guardam a calçada de casa
As ovelhas de olhos vermelhos e patas trêmulas agradecem

Agora, levanta da cadeira
Come os bolinhos que sua vó fez com a chuva e com o óleo
Hoje, a oca quase virou fogueira
Sua vó poderia ser uma química de renome que viveria igual a Adélia,
Fazendo experimentos com palavras e descobrindo novos sentimentos radioativos
Novos jeitos de brilhar a aura quando se mostra os dentes pra um comentário sem graça

Promete pra mim
Que sim, que mesmo que sua mãe te tranque nessa gaiola
E engula a chave, como de costume
Tu continuarás a sentar na janela e aumentarás a frequência de teus cantos
Que tuas penas não se transformarão em escamas brilhantes de verde e vermelho
Nunca.
Se quiser até peço uma pílula pra sua avó química
ou mesmo a receita do feijão que você gosta;
mas se tua mãe te trancar nessa gaiola de garras febris
promete
que tu subirás nessa cadeira e farás um escândalo?

10.1.16

A escassez desta língua
ascende ao rio sem fundo

Do lado de cá
vejo teu rosto ser açude

E ainda restam tantas cebolas
nesta vida

Num dia sem mar a gente corre pras árvores
e de lá vemos que a Terra tem fim:

Nós também.
Dói
Dói tanto o teu beijo

Emaranhado num monte de cabelos
E fios de energia que descem de tua cabeça de lâmpada
Estou.

De noitinha
Quando ela ainda é muito jovem
Tem esse olhar triste sob o céu
Algo de ovelha num pasto verde que também é um penhasco onde as ondas não são piedosas com as pedras.
Mas aqui não existem pastores e desconheço as ovelhas ou os campos verdes que também são penhascos.

Mas dói
Isso sim.

Então, olho o teto da casa, as telhas, as paredes de tijolo e barro
Olho o chão de ardósia, as vigas de madeira velha
Os rebocos

Então, dói ainda mais.

Lamberia as folhas da árvore da vida
E comeria todas as crias do Tempo
Para fazê-lo entender o que nós somos

Para amenizar
O rito da partida.
Esse ritual macabro de sacrifício humano: o até logo ou o volto daqui uns dias.

2.
O inatingível ainda tem o cheiro do almoço de domingo
E as vozes de todos
Os pratos
Os copos
Os garfos

Festejamos o inevitável.

E o lamentamos também.

3.
Oh Orpheu
Oh Eurydice

4.

Ir também é uma forma de ficar.

7.1.16

Cabresto

novamente as cracas:
tão belas e imponentes.

e ao muro caminha um cavalo marinho
infértil
potro estéril

tubarão de peixe-palhaço

falador
de ações gagas.

e mostra e regozija-se

brilha de óleo
bijuteria pura e fina
da melhor qualidade
daquelas fotos profundas pintadas no chão

dicionário filantrópico
de prática teórica.

e as cracas riem
cagam suas risadas
no chão etéreo

e o potro mostra os dentes
impõe sua crina ébria
lambe
sua língua áspera e confortante
o muro

percebe-se majestoso
as cracas riem.

criador de falácias
agarra-se à parabólica
lança-se num número magistral

gran-finale
para seu xucro espetáculo.

4.1.16

Anunciação na Enfermaria 6


E o ano se inicia com tremenda alegria!! Meu poema Anunciação está na Enfermaria6! Muito obrigado aos editores!!
Segue aqui um trechinho:
De dentro das entranhas carnavalescas
as árvores abanam suas fuças;
Daqui a 2 ou 3 éons
as pedras aprenderão a falar
e não haverá ser que
reproduza os diálogos desta
que será uma língua arcaica-oral.


 Anunciação