Victor Prado: setembro 2016

17.9.16

Eu sou um rio em rota de colisão com o teu corpo

Eu sou um rio em rota de colisão com o teu corpo
Eu sou o teu corpo

Eu tento fugir
e abro as asas e tento ir pro norte
mas no norte tem muito espaço
e tudo que eu quero
é só um abraço

Ontem pediram pra eu falar um pouco de mim
Eu poderia ter dito isto:

Eu sou um rio em rota de colisão com o teu corpo
Eu sou o teu corpo

mas não disse
poderia não ter dito nada
que também significaria muito.

Eu te disse que hoje eu lembrei quem eu era?
Também lembrei da vez que eu perdi uma camiseta
enquanto jogava futebol no campinho da escola

Hoje eu também subi no parapeito da janela
e olhei lá em baixo e descobri que
Eu sou um rio em rota de colisão com o teu corpo:
feche os olhos
e mergulhe.

Os Fantasmas

vocês caminham pela
casa
entram no banheiro
sentam-se no vaso
ligam o chuveiro
se olham no espelho
arrumam o cabelo
que já não há

vocês calam-me a boca
escondem as canetas
e nunca se quietam!

vocês não morrem nunca!
vocês não têm carne
vocês só têm títulos
que copiaram de outros
que também copiaram de outros

de onde eu tirei isso?

da minha cabeça que ainda tem cabelos
que ainda consegue deduzir e desconfiar
,de algumas coisas sem ter que copiar
a dúvida ou a certeza
para justificar a saliva gasta

não gasto mais a saliva com vocês
não gasto mais a minha a tristeza
com essa gente que cheira bem
que tem dentes brancos e fáceis
não despendo mais um tostão
para ver esses tais que nunca
são zombados, pois zombam
a tudo e a todos, com suas
piadas prontas e trocadilhos mirins

vocês não são burros,
por isso, são ainda mais feios.
e, realmente, não morrem nunca.

Eu Falo Para Aqueles Que Correm De Seus Corações Numa Tarde De Sol

Numa esquina você espera o ônibus
bem na frente do ponto de ônibus
bem na frente de um terreno
um terreno do tamanho da sua mão fechada
mas o terreno é um campo aberto
bem aberto, bem mais que seus dentes
bem mais que a justificação da caminhada
talvez até mais impenetrável que suas unhas

mas seria imponderável calcular um momento ou o todo
ao redor. seria pesado, do tamanho de um olhar que a gente
nunca quer ter.

eu falo para aqueles que correm de seus corações numa tarde de sol
e levam no bolso o passe do ônibus com todos os créditos
eu falo para aqueles que correm descalços pelo asfalto das ruas desossadas
e desatentos não tropeçam nos buracos

eu esfolo os olhos numa tentativa de fala
mas nada
nada
nada
parece alcançar a pequenez necessária
que se deve ter para que escutem a pele

eu falo para aqueles que subiram em suas cabeças e viram de lá
que o mergulho é algo que inunda
e corro atordoado por tantos muros
atento a tantas cercas
e falo para aqueles que ainda correm
falo correndo para aqueles que ainda estão

eu levo no bolso um peito aberto
um rebento
um sopro
uma barragem estourada

e agora te vejo ai
e te aviso:
teu ônibus vem,
mas demora. Os teus pés não precisam da espera, porque são asas.

Texto publicado originalmente na Enfermaria 6

Bastardo - Recensão por Victor Gonçalves

Este texto é de autoria do querido escritor Victor Gonçalves e foi publicado originalmente no site da Enfermaria 6. Trata-se de uma bela análise do meu primeiro livro, espero que gostem tanto quanto eu. Boa leitura!


"Leitura do belíssimo, intenso, subtil e inovador, livro de Victor PradoBastardo (Urutau, 2016).
A vocação da poesia é a de agitar a linguagem e o sentido, quebrar a esclerose dos hábitos de pensamento, quase dizer o indizível, abrir a porta ao que está para emergir, e produzir uniões à sua volta. Mas também viajar entre o superficial e o profundo. E isto Victor Prado fá-lo muito bem, surpreende a vida quotidiana no seu aparecimento, desarmada, e captura com palavras algumas das raízes que a ligam a qualquer coisa de imutável, a um sentido para lá da própria língua que agora a traz à presença. Victor Prado aponta gestos originários que desenham parte do nosso mundo, gestos toscos, porque nascentes, difíceis de fixar pelas ferramentas do poeta, que luta constantemente para apanhar fluxos de vida e plasmá-los em poemas, que terão também de ser fluxos poéticos. Às vezes confessa os impasses que se levantam, outras vezes desiste mesmo, sublimando-se numa meta-poesia que compensa a dificuldade de poetar. Esta honestidade é o verdadeiro caminho para os mais altos cumes da Arte, só quem se rasga de desespero, quem fracassa no limiar da vitória, pode subir a “6 mil pés de altura”. Por isso, não conseguimos evitar um frisson quando lemos Bastardo, não como um soluço, meio caprichoso ou meio snob, mas como um safanão que nos retira a esperança de tudo entrar nos eixos mais tarde ou mais cedo.
Enquanto leitor, procurei os meus próprios ritos de contemplação, em filigrana, sabendo que a poesia cresce sobre as ruínas dos afectos e dos sentidos que oleiam a normalidade. A poesia de Victor Prado faz guinchar as peças das engrenagens intersubjectivas, quebra consensos comunitários, apunhala as subjectividades que a abraçam à espera de consolo. A sua poesia é uma casca de banana debaixo de sapatos bem engraxados. No mínimo, deslizamos e quebramos a perna que nos ajudava, sem o sabermos, a ir geometricamente de um lado para o outro, daquele lado para aquele outro, peripatéticos assoberbados por tantas coisas inúteis.
Seguem-se algumas das inúmeras portas de entrada para Bastardo, há outras, talvez até mais importantes ou luminosas.
Renovação da língua, experimentação extrema do que se pode dizer, com o corpo. Muitas vezes o corpo, mais espinosista do que cartesiano, deste Victor.
Sexta-feira  
Eu estou nuvem pontiaguda
Cada ponta relampeja em mim
e trovoa-me
Cada relâmpago de mim
te guia pela escuridão
O dia é duro e estático,
mas
o tempo é borrachudo
entre os dentes
Teu corpo é fluido em minhas mãos.
Actualização linguística ancorada no português-brasileiro que habita nas ruas, praças e cafés, língua de conversa, às vezes fiada, íntima e pública, mais performativa do que semântica (“Onde está a palavra quando / fingimos a nós?”), produtor de sentido porque nos sacode mais do que nos guia numa linha clara de significações (“Misturando com o cheiro de querer fazer / algo inovador de transcender a linguagem / e conseguir se comunicar”, “Epifania”). O poeta elege uma estética da força em vez de uma do belo, tudo faz para reactivar a sensibilidade, envolta em ritmo e vibração. Por isso, prefere desaprender a aprender (a vertigem da primeira é substancialmente superior à da segunda), entrando novamente no mundo incógnito (mesmo desejando por vezes apanhar solidez e vida harmoniosa com as mãos), talvez só assim alcance a tão procurada “Narrativa surrealista de acontecimentos reais”. E para começar, recusa os cortes semânticos das palavras, junta-as para ver o que dizem de novo: “e apareço a ti com olhosboca, ouvidosboca / e um coraçãoestômago” (“Adendo ao Poema Confissão 2”).
Arquitetura de Percepção 2
[…]
O mundo incógnito constrói-se
através das insignificâncias
Eu desaprendi
a ser tantos
Ela aprendeu-me pela prática.
Mas o excesso cansa, conspurca, Victor Prado tem a noção exacta dos elementos linguísticos necessários aos jogos de sentido que quer compor, quase não há palavras ou sílabas a mais, a sintaxe é sóbria e respeita a oralidade, o livro tem a amplitude certa, mesmo quando por momentos atinge a incandescência. Compreende-se, pois, que diga:
 Caleidoscópio
[…]
A moça no jornal diz tantas
palavras desnecessárias
que me parece pornografia.
[…]
Leia-se também a magnífica dança de equívocos, provocada pela surdez e outras barreiras comunicacionais, no poema “Visita”, onde múltiplos significados bailam a partir do capricho soberano de cada subjectividade, de cada sujeito evanescente por falta de exterior (blindar o íntimo chama a loucura).
Victor Prado assegura uma tensão criativa entre o exterior e o interior, ora analisando, ora reflectindo. E olhando-se para fora com os demónios do interior acordados baralha-se a geometria da identidade, já que tudo é fundamentalmente pulsional, ondas de forças fulgurantes:
Precipitação
[…]
Os pássaros fizeram ninhos nos prédios
de frente e sempre há um gosto salgado
quando engulo minha saliva.
Aprecia-se o paradoxo vital (“Às salinas é inevitável / que se formem para / estancar feridas.”), porque o amor e o desejo, talvez menos deleuziano do que pretende Carla Carbatti (óptima prefaciadora) explodem, apesar de confinados em possíveis já destinados, aqui, contra outras visões suas, Victor Prado afirma-se “unipolar”.
Confissão
[…]
meu mundo não é globalizado
ele é unipolar.
e curtas infinitas são as estradas todas que levam a você
[…]
No mesmo lugar, fala dessa eterna laceração que o amor, e a falta dele, induz nos pobres implorantes que se querem unir, com o exclusivo de uma força brusca e incontrolável, frustrados pelo poder da gravitação universal:
[…]
desmantela-me e esfumaceia as coisas
teu estado ausente.

sou resquício de algo que era.
sem ti, rapidamente, me implodo.
Por isso, diz esse apaixonado que julgamos ser Victor Prado: “Quero-te.” Recusando os códigos de pontuação que enfatizam palavras para preservar a ignorância sobre se este querer é tão amplo que tudo fica suspenso à espera de uma resposta, ou se é já a última etapa de um desejo derrotado pela indiferença do objecto amado. Entramos, pois, no trágico civilizado, onde ninguém morre por interromper, ou ser interrompido, a linha que vai da Terra ao Céu, do Eu ao Tu, do Dentro ao Fora, hoje o trágico só baralha a velha cisão entre bem e mal. Este “Quero-te” é uma descarga de consciência, uma catarse a priori, impossível de levar à cena, mas não para espectadores, esgota-se em si mesmo, uma autofagia em lume brando. Isto porque “a vida não é mais do que poderia ser.”
Ao mesmo tempo, Victor Prado cambaleia e dá um rim (meia esperança de vida, note-se) por visões assentes nas palavras “vertigem”, “inquietação”, “profusão”, “heresia”, “abertura”, “choque”, “acaso”, “grito”... porque, di-lo logo a seguir em “Profusão de Cores”, por vezes “os amores são reais / e o corpo não está submerso / dentro de si mesmo / e essas vidas podem ser vividas / sem medo da Inquisição”, isto leva a que “a boca perde o medo de falar / os olhos de olhar / o peito de bater / a cabeça de pensar”. Multiplicidade selvagem, indomável, que cura aquilo que a sensatez e o medo tinham lenta e suavemente apodrecido, para que haja “encontros” entre “Pontos vagos / desconexos”. Daí a vontade de partir e recomeçar:
Domingo
[…]
De deixar a fila
Sair do mercado
            De recomeçar tudo
            em outro lugar
            em outro tempo.
de novo.
Mesmo quando “o destino da folha é o chão” (“Augusto”).
Há uma delicada atenção ao tricô da vida quotidiana, gestos insignificantes cheios de biografia, completos, mesmo que banais. Talvez não seja uma “beleza líquida”, mas têm a força de serem o que são. Trata-se de infiltrar a poesia com todo o tipo de pulsões do dia-a-dia, sem conjurar nada: “Não há como ajudar /alguém a carregar / uma metáfora viva / que resida em seu sangue.” (“Caleidoscópio”) Victor Prado transforma facilmente sensações banais em sensações poéticas.
Domingo 2
[…]
O senhor pesa suas batatas
            e vai embora
            (a fila aumenta)
Eu sou o próximo.
Mesmo se ela que o “olhou com olhos d’água / por um ínfimo de eternidade” lhe diz, depois de aguentar as investidas de um Casanova inoportuno, “Prefiro sonhos a concreto.” (lembramo-nos de Bernardo Soares, dos seus sonhos mais completos do que a realidade). Mas, claro, o “mercado” é eficiente, “Ele está pouco se fodendo / pros teus olhos castanhos, / menina.”
Por tudo perpassa o tempo (em todas as fissuras e continuidades do espaço), esse velho desmancha prazeres, tão necessário quanto escusado. Podemos viver a vida a arranjar calços para todas as peças assimétricas, querendo nivelar até à perfeição o que prefere dissensos e outras guerrilhas, mas:
Travessa
[…]
Tu tens alimentado um monstro:
            o tempo.
E ele engolirá o teu clamor
e a todos nós, no mais inoportuno
dos momentos.
Victor Prado convoca também uma geopolítica poética, forma de denunciar injustiças, presentes desde logo nos discursos mais escorreitos e “sérios”. Será uma poesia engajada? Pode a arte maior da palavra curar as intoxicações do mundo? Pode um “Abraço ao Terror” substituir o “odiar quem odeia” (velha dialéctica estéril), envolver de bons afectos e ritos antigos quem se extremou tanto que quer voar despedaçadamente até ao transcendente mortífero? Sabendo-se que é preciso viver as derrotas como um privilégio irrepetível, o autor afasta com as mãos em sangue “esses bruscos sopros / do descontentamento” (“Adendo ao Poema Confissão 2”).
Os leitores devem mastigar e engolir os poemas, é porventura no estômago que melhor se faz uma hermenêutica adequada à escrita de Victor Prado. Como descodifica os sistemas-língua dominantes, não se espere poder caçar facilmente o sentido com os gestos gastos da leitura compreensiva, “A construção dos significados / dos / sentidos /azul e / eles / nada além / de reflexos” (“Não-Sei-Onde 3”). E há muitas palavras indigestas, algumas provocam vómitos, aliás o poeta também se vê compelido a essa expulsão das entranhas, mais radical ainda, já que ele se quer vomitar a si próprio:
Mal-Estar 2
Eu quero vomitar-me
            vomitar-te de mim
            vomitar tudo de mim
[…]
Tanto mais que “Nada disso é teórico e é difícil não se engasgar.” (“Constante”). E mesmo o leitor Victor Prado, quando se põe em modo autofágico diz: “Não gosto nem de reler meus textos; Bate uma / vontade de rasgar a folha” (“Do cansaço I”).
“Não consigo alcançar o silêncio” (“Do cansaço II”), refere o poeta, como se procurasse a linguagem adâmica, quase não-linguagem, no preciso momento do acordar linguístico, primeiro movimento para a formação de fonemas e grafemas, desenho inicial do pré-verbal que descreve tudo sem se fragmentar ainda nas particularidades linguísticas, o livro do mundo inteiro numa arqui-escritura sem identidade, a plenitude do sentido. Trata-se de enunciar quase fora da enunciação, sem mediações, comunicação directa, não como em Alberto Caeiro entre o humano e a natureza, mas entre o poeta e a esplendor das coisas ainda incodificadas, sem cultura. Noutros casos, uma rede subterrânea cria ligações significativas capazes de constituir um discurso poético perfeitamente inteligível. É também por isso, creio, que Victor Prado nos confessa a sua dificuldade em escrever: “Não consigo escrever. / Não mais como / antes. Como eu costumava fazer.” (“Do cansaço I”). Esta revelação negativa, inscrita mais ou menos sanguinamente em todos os poetas, assinala que a quantidade pletórica de palavras criou uma cacofonia insuperável, o uso despudorado da linguagem fê-la funcionar ao contrário. O esclarecimento só pode agora estar no silêncio.
Apesar disto, Victor Prado é um artífice das palavras, da sua forja saem exemplares únicos, belos, mesmo quando foram fabricados para distorcer o apolíneo, em geral criteriosamente precisos, apesar da sua força ampla e destemida de esboços livres. Ser forjador de palavras responsabiliza-o por amar um exército de leitores, que ele não quer submissos. É isso que se cumpre exemplarmente em Bastardo".

Ana Teresa Declama "Do Cansaço 1"

Estive na rádio. Dá pra acreditar?

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