Victor Prado: Stratus

29.10.14

Stratus

o curso do rio,
siga o curso do rio

tu me repetias
mas eu não entendo teus diagramas
tuas resoluções tuas limiares
tuas concessões
eu não entendo quando tu apontas o dedo pra lá do próprio horizonte
e com dentes frouxos salivas essas palavras de um dialeto que deveria morrer

segue o rio
só isso
aquele que vira depois da mata
aquele que corta pulsos
aquele rio
segue o curso dele

sabe quando a gente balança a cabeça depois de muito tempo sem ter que balançar a cabeça? vem o medo do torcicolo? ou o medo de esquecer como se balança a cabeça? sabe quando a gente olha e vem a vontade de balançar a cabeça?

porque sim
porque ele não é fundo
porque ele é calmo
porque bebe-lo é quase ascender ao impossível
é brotar-se igual feijão num copo qualquer
é despojar-se e dizer ao vento:

cuspa-me por essas estradas
e não me olhe nos olhos
deita-me, então, e desposa-me
faça de mim redemoinhos
e numa curva qualquer esqueça-me,
pois sou tua, mas não sou pra sempre.

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